terça-feira, abril 14, 2009
segunda-feira, março 23, 2009
V. (gatos)
meio a pêlos eriçados
altos muros violetas
troncos folhas borboletas
vivem os antepassados
que em silêncio narram mitos
sobre os saltos dos cabritos
e as gatas atrevidas
que por mais que não se conte
já mergulharam na fonte
que concede sete vidas
quinta-feira, fevereiro 26, 2009
CONSTATAÇÃO DA FEDORA ATUAL
CONSTATAÇÃO DA FEDORA ATUAL
Fedora coleciona desejos:
guarda suas ambições em esferas de vidro
e, ao se anularem as possibilidades
de ser tudo o que quis e não foi,
contempla seus projetos com um reconhecimento desdenhoso,
agitando as esferas de vidro
para esvoaçar dentro de si
os opacos flocos brancos do seu passado frutífero.
quinta-feira, fevereiro 12, 2009
IRENE E O ENIGMÁTICO ALCANCE
IRENE E O ENIGMÁTICO ALCANCE
Irene é um ser ao longe.
Mantendo uma relevante distância,
pode-se admirar as pinturas
de sua pele
em explosões multicoloridas.
Seu canto quase inaudível
atinge-nos feito eco
e, às vezes,
mas apenas de olhos fechados,
quase nos toca as orelhas com a ponta dos lábios.
Alguém, no entanto, reconhecerá
na inevitável ausência de uma esfinge
a tenaz dúvida desta entidade:
Irene é um ser ao longe,
e será que, alcançado o patamar do seu corpo,
encontrar-se-á tão somente um cadáver
envolto em vaga-lumes e insetos barulhentos
que nada sabem de mim?
terça-feira, fevereiro 10, 2009
TRANSMUDAR
TRANSMUDAR
No presente da esfera,
um querer inanimado
por um ato inominado
de assumir função de hera.
quarta-feira, janeiro 14, 2009
SOBRE A BELEZA FRÁGIL
SOBRE A BELEZA FRÁGIL
Ele era belo
e oco.
Um dia, abriram-lhe a boca oca
e as orelhas e as narinas limpas
e o ânus e a cabeça vazia
e em todos os orifícios
enfiaram pequenas lanternas.
Oh, triste e magnífica constatação!
Ele era belo e oco
e ecoava dentro de sua carcaça
o brilho reflexivo
de um milhão de teias de aranha.
segunda-feira, dezembro 29, 2008
quarta-feira, dezembro 24, 2008
segunda-feira, dezembro 01, 2008
ANTÔNIO DESLUMBRADO - LAR
ANTÔNIO DESLUMBRADO NO OCEANO DE AREIA
Lá não se via ninguém, apenas rastros de passagens distantes no já foi e possibilidades de encontros em um por vir difícil de supor.
Quando Antônio Deslumbrado finalmente se depara com a indefinição vertiginosa do mar, o que mais lhe prende a atenção são os banhistas, os pescadores e os transatlânticos desbancando a unidade infinita das águas. À primeira vista, o oceano lhe parece tão gigantesco quanto é uma lágrima na terra seca de sua casa.
— Oh, quão maravilhosa é a vastidão do meu sertão, cuja maior virtude é não caber em si de solidão!
sexta-feira, novembro 28, 2008
ANTÔNIO DESLUMBRADO - FELICIDADE
ANTÔNIO DESLUMBRADO NA CAMINHADA CIRCULAR
A imensidão que acolhia Antônio antes que este resolvesse descobrir o mundo não era suficiente para suportar tudo o que nele havia de curiosidade e desejo efêmeros. Para o alívio da alma de Antônio Deslumbrado, era preciso abrir a porteira cuja cerca impedia a expansão do horizonte.
Em seu caminhar trôpego, Antônio Deslumbrado se depara com um velho andarilho conhecedor de diversos pedaços avulsos do mundo. Este lhe fala da austeridade de Machu Pichu, da dor no teatro japonês, do fervor do cinema indiano e das cores da sequidão. Entretanto, lamenta-se profundamente por ter perdido a consciência divisória de lar, a qual limitaria o espaço para onde gostaria de voltar e descansar neste instante.
— A felicidade é o nunca.
quarta-feira, novembro 26, 2008
ANTÔNIO DESLUMBRADO - SOLIDÃO
ANTÔNIO DESLUMBRADO NA BOATE SOLIDÃO
Estar só, para Antônio Deslumbrado, era vagar na imensidão dos dois mundos que habitava: o dentro e o fora. Em seu lar, não se corria o risco de ser interrompido em seu vazio, visto que o mínimo de animais que ele poderia encontrar naquelas bandas de secura, todos eles, respeitavam-no, ficando, assim, as divagações livres para suprimir o universo por completo.
Antônio Deslumbrado entende menos ainda a cidade à noite, quando as pessoas parecem querer desengolir algo que puseram pra dentro a contragosto. Pára em uma boate, lugar que lhe disseram ser ótimo para espairecer, e encontra um ninho de pessoas ávidas para vomitar seus males, esgueirando-se e se tocando em uma solidão desconcentrada.
— O que falta nesta cidade é chão para ficar só e não ser interferido pelos enganos do ego.
sexta-feira, novembro 21, 2008
ANTÔNIO DESLUMBRADO - MEMÓRIA
ANTÔNIO DESLUMBRADO NO TRONCO HISTÓRICO
Não é que Antônio Deslumbrado levasse uma vida frustrante. Onde vivia seco, qualquer coisa possuía extensões de seus sentimentos. Tudo a sua volta estava marcado com pegadas de suas recordações, marcas de seu amor e sua melancolia. O que o fez deixar seu mundo de espelhos foi a inquietude nascida no desejo de conhecer tudo o que não era ele próprio.
Antônio Deslumbrado chega ao logradouro que lhe disseram ser considerado o bairro histórico da cidade e se sente angustiado. Procura razões nos casarões antigos, na arquitetura luxuosa, nas alamedas simétricas, nos calçamentos de mosaico e nas luminárias dançantes, mas nada sente. Desiludido, pára e descansa sobre as raízes de uma velha árvore cujo tronco, ele vê, está repleto de declarações de amor escritas a canivete em tempos indizíveis.
— Graças a Deus! Finalmente encontrei o monumento histórico essencial deste lugar pobre de sinalizações!
quarta-feira, novembro 19, 2008
ANTÔNIO DESLUMBRADO - FOME
ANTÔNIO DESLUMBRADO NO PERCURSO DA FOME
Maria Doçura, todas as manhãs, dançava milho às galinhas. Não era simplesmente o ato de alimentá-las fisicamente; ela se comunicava e nutria suas almas através dos movimentos encantados e do calor dos seus poemas corporais.
Comendo desajeitado algo que conseguira numa bodega generosa, Antônio Deslumbrado é desafiado por um cão de rua. Muito magro, o animal emite um pedido fino e, após receber o alimento cedido por Antônio Deslumbrado, se põe a seguir seus passos.
— Venha comigo e descobrirás que comer apenas por fome não é o suficiente quando se conhece Maria Doçura, minha musa.
terça-feira, novembro 18, 2008
ANTÔNIO DESLUMBRADO - TRISTEZA
ANTÔNIO DESLUMBRADO NA PRAÇA DAS CAVEIRAS
Certas noites, depois que a casa envolvia-se num sono inebriante, Antônio Deslumbrado saltava a janela do quarto para pôr-se diante do cacto que o hipnotizava desde a infância. Seu formato era esbelto e lúgubre: assemelhava-se a um homem moribundo em uma súplica derradeira.
Antônio Deslumbrado percorrera diversas situações superficialmente desagradáveis até que, ao se aproximar de uma praça despedaçada, alguém o previne de que está entrando no ambiente mais triste do mundo. Lá, enroladas em pedaços podres de pano e papelão, pessoas feitas apenas de osso e pele gemem e se esquentam umas nas outras.
— Ora, estão cegos? Não é esta a real beleza da tristeza que deveriam exibir...
segunda-feira, novembro 17, 2008
ANTÔNIO DESLUMBRADO - NOITE
ANTÔNIO DESLUMBRADO NA NOITE ENDIADA
A densidade da escuridão onde vive Antônio Deslumbrado é tanta que se tem a impressão de que mais perto está o longínquo e que dificilmente se alcançará o que deveria estar a três passos. Desta forma, os habitantes do lugar, à noite, guiam-se mais pela lembrança do que pelos sentidos.
Passadas esquinas com postes de iluminação, semáforos, anúncios luminosos e faróis de automóveis, Antônio Deslumbrado avista um beco moribundo que abre uma pequena listra negra adjacente ao brilho incandescente da cidade anoitecida e penetra o breu.
— Enfim, um lugar de onde ainda não roubaram a graça essencial da madrugada...
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