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CRIANCIAÇÃO XIII choveu a nuvem toda sobre a casa papelão e folha e galho e bicho meu irmão pusera tela de nada impermeável sob o sol a casa está coisa viva de cristais e gotas d'água e folha e bicho e a gente quando dentro vira bicho também dela e coisa viva de cristais e gotas d'água e folha e galho Marcadores: Memórias Esdrúxulas de um Poetazinho, Meu Nome Por drico IMAGINÂNCIA Hoje, porém, nasceram as palavras. Elas que vieram dar continuidade à memória que já não se sustenta por si. As palavras aptas a ligar a lembrança ao agora. Elas brotaram brutas e cientes de seu poder. A imagem do som virou letra escrita, assim como a forma do odor e das sensações. Nem mesmo o vulto ou a imagem da imagem resistiu à avalanche destrutiva das palavras, e, caso não se faça algo imediatamente, toda a sua vida está sujeita a se transformar, de um respirar para o outro, em uma inversão perigosíssima do que seria a poesia. Marcadores: Meu Nome, Mini-Contos Por drico osilêncioéumaparáfrase. Marcadores: Leite de Letra Por drico meio a pêlos eriçados altos muros violetas troncos folhas borboletas vivem os antepassados que em silêncio narram mitos sobre os saltos dos cabritos e as gatas atrevidas que por mais que não se conte já mergulharam na fonte que concede sete vidas Marcadores: Soltos Por drico CONSTATAÇÃO DA FEDORA ATUAL Fedora coleciona desejos: guarda suas ambições em esferas de vidro e, ao se anularem as possibilidades de ser tudo o que quis e não foi, contempla seus projetos com um reconhecimento desdenhoso, agitando as esferas de vidro para esvoaçar dentro de si os opacos flocos brancos do seu passado frutífero. Marcadores: Visões de Cidades Invisíveis Por drico IRENE E O ENIGMÁTICO ALCANCE Irene é um ser ao longe. Mantendo uma relevante distância, pode-se admirar as pinturas de sua pele em explosões multicoloridas. Seu canto quase inaudível atinge-nos feito eco e, às vezes, mas apenas de olhos fechados, quase nos toca as orelhas com a ponta dos lábios. Alguém, no entanto, reconhecerá na inevitável ausência de uma esfinge a tenaz dúvida desta entidade: Irene é um ser ao longe, e será que, alcançado o patamar do seu corpo, encontrar-se-á tão somente um cadáver envolto em vaga-lumes e insetos barulhentos que nada sabem de mim? Marcadores: Meu Nome, Visões de Cidades Invisíveis Por drico TRANSMUDAR No presente da esfera, um querer inanimado por um ato inominado de assumir função de hera. Marcadores: Soltos Por drico SOBRE A BELEZA FRÁGIL Ele era belo e oco. Um dia, abriram-lhe a boca oca e as orelhas e as narinas limpas e o ânus e a cabeça vazia e em todos os orifícios enfiaram pequenas lanternas. Oh, triste e magnífica constatação! Ele era belo e oco e ecoava dentro de sua carcaça o brilho reflexivo de um milhão de teias de aranha. Marcadores: Soltos Por drico METAMOR lascivos baques de um coração que casula descrisálidam-no almaque de expressões seminulas Marcadores: Soltos Por drico Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NO OCEANO DE AREIA Lá não se via ninguém, apenas rastros de passagens distantes no já foi e possibilidades de encontros em um por vir difícil de supor. Quando Antônio Deslumbrado finalmente se depara com a indefinição vertiginosa do mar, o que mais lhe prende a atenção são os banhistas, os pescadores e os transatlânticos desbancando a unidade infinita das águas. À primeira vista, o oceano lhe parece tão gigantesco quanto é uma lágrima na terra seca de sua casa. — Oh, quão maravilhosa é a vastidão do meu sertão, cuja maior virtude é não caber em si de solidão! Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NA CAMINHADA CIRCULAR A imensidão que acolhia Antônio antes que este resolvesse descobrir o mundo não era suficiente para suportar tudo o que nele havia de curiosidade e desejo efêmeros. Para o alívio da alma de Antônio Deslumbrado, era preciso abrir a porteira cuja cerca impedia a expansão do horizonte. Em seu caminhar trôpego, Antônio Deslumbrado se depara com um velho andarilho conhecedor de diversos pedaços avulsos do mundo. Este lhe fala da austeridade de Machu Pichu, da dor no teatro japonês, do fervor do cinema indiano e das cores da sequidão. Entretanto, lamenta-se profundamente por ter perdido a consciência divisória de lar, a qual limitaria o espaço para onde gostaria de voltar e descansar neste instante. — A felicidade é o nunca. Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NA BOATE SOLIDÃO Estar só, para Antônio Deslumbrado, era vagar na imensidão dos dois mundos que habitava: o dentro e o fora. Em seu lar, não se corria o risco de ser interrompido em seu vazio, visto que o mínimo de animais que ele poderia encontrar naquelas bandas de secura, todos eles, respeitavam-no, ficando, assim, as divagações livres para suprimir o universo por completo. Antônio Deslumbrado entende menos ainda a cidade à noite, quando as pessoas parecem querer desengolir algo que puseram pra dentro a contragosto. Pára em uma boate, lugar que lhe disseram ser ótimo para espairecer, e encontra um ninho de pessoas ávidas para vomitar seus males, esgueirando-se e se tocando em uma solidão desconcentrada. — O que falta nesta cidade é chão para ficar só e não ser interferido pelos enganos do ego. Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NO TRONCO HISTÓRICO Não é que Antônio Deslumbrado levasse uma vida frustrante. Onde vivia seco, qualquer coisa possuía extensões de seus sentimentos. Tudo a sua volta estava marcado com pegadas de suas recordações, marcas de seu amor e sua melancolia. O que o fez deixar seu mundo de espelhos foi a inquietude nascida no desejo de conhecer tudo o que não era ele próprio. Antônio Deslumbrado chega ao logradouro que lhe disseram ser considerado o bairro histórico da cidade e se sente angustiado. Procura razões nos casarões antigos, na arquitetura luxuosa, nas alamedas simétricas, nos calçamentos de mosaico e nas luminárias dançantes, mas nada sente. Desiludido, pára e descansa sobre as raízes de uma velha árvore cujo tronco, ele vê, está repleto de declarações de amor escritas a canivete em tempos indizíveis. — Graças a Deus! Finalmente encontrei o monumento histórico essencial deste lugar pobre de sinalizações! Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NO PERCURSO DA FOME Maria Doçura, todas as manhãs, dançava milho às galinhas. Não era simplesmente o ato de alimentá-las fisicamente; ela se comunicava e nutria suas almas através dos movimentos encantados e do calor dos seus poemas corporais. Comendo desajeitado algo que conseguira numa bodega generosa, Antônio Deslumbrado é desafiado por um cão de rua. Muito magro, o animal emite um pedido fino e, após receber o alimento cedido por Antônio Deslumbrado, se põe a seguir seus passos. — Venha comigo e descobrirás que comer apenas por fome não é o suficiente quando se conhece Maria Doçura, minha musa. Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico |
