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osilêncioéumaparáfrase. Marcadores: Leite de Letra Por drico meio a pêlos eriçados altos muros violetas troncos folhas borboletas vivem os antepassados que em silêncio narram mitos sobre os saltos dos cabritos e as gatas atrevidas que por mais que não se conte já banharam-se na fonte que concede sete vidas Marcadores: Soltos Por drico CONSTATAÇÃO DA FEDORA ATUAL Fedora coleciona desejos: guarda suas ambições em esferas de vidro e, ao se anularem as possibilidades de ser tudo o que quis e não foi, contempla seus projetos com um reconhecimento desdenhoso, agitando as esferas de vidro para esvoaçar dentro de si os opacos flocos brancos do seu passado frutífero. Marcadores: Visões de Cidades Invisíveis Por drico IRENE E O ENIGMÁTICO ALCANCE Irene é um ser ao longe. Mantendo uma relevante distância, pode-se admirar as pinturas de sua pele em explosões multicoloridas. Seu canto quase inaudível atinge-nos feito eco e, às vezes, mas apenas de olhos fechados, quase nos toca as orelhas com a ponta dos lábios. Alguém, no entanto, reconhecerá na inevitável ausência de uma esfinge a tenaz dúvida desta entidade: Irene é um ser ao longe, e será que, alcançado o patamar do seu corpo, encontrar-se-á tão somente um cadáver envolto em vaga-lumes e insetos barulhentos que nada sabem de mim? Marcadores: Meu Nome, Visões de Cidades Invisíveis Por drico TRANSMUDAR No presente da esfera, um querer inanimado por um ato inominado de assumir função de hera. Marcadores: Soltos Por drico SOBRE A BELEZA FRÁGIL Ele era belo e oco. Um dia, abriram-lhe a boca oca e as orelhas e as narinas limpas e o ânus e a cabeça vazia e em todos os orifícios enfiaram pequenas lanternas. Oh, triste e magnífica constatação! Ele era belo e oco e ecoava dentro de sua carcaça o brilho reflexivo de um milhão de teias de aranha. Marcadores: Soltos Por drico METAMOR lascivos baques de um coração que casula descrisálidam-no almaque de expressões seminulas Marcadores: Soltos Por drico Por drico CAFÉ COM ONTEM Acordo com um chiado de chaleira. A constância do zunido me inquieta desde o sonho, obrigando-me a despertar a contragosto. Ainda deitado, questiono-me quem estaria cozinhando em minha casa, que sempre me foi o local de retiro, o ambiente para o qual volto sempre sozinho e onde jamais admiti uma presença maternal. Talvez o chiado da chaleira fizesse parte apenas do sonho, pois, agora que o considero incoerente, já não o ouço mais. O celular ao lado da cama está desligado. Penso em ativá-lo, pois é preciso situar-me no tempo, porém, diante da possibilidade de me deparar com qualquer ligação ou mensagem, enfim, qualquer expressão externa que me ligue a um mundo habitado não apenas por mim, prefiro ignorar a hora. Neste instante, só existe um homem na Terra. O que faz o homem que se descobre sozinho no mundo? Levanto-me. Sinto uma leve tontura e meus ouvidos demonstram estar desacostumados à realidade. No ato de erguer-me, ouço passos e ruídos de coisas sendo arrastadas. Tudo é reverberação de um ontem oblíquo. Os rostos que vi entre lapsos de escuridão, os toques que experimentei entre toques desprezados e todo o resto — que é o que o sentir implica ininterruptamente, e que, portanto, jamais poderia ser chamado de resto, mas de essencial — todo o essencial pulsam como imagens perdidas, tosses momentâneas e cheiro de café na cozinha. Sem dúvida, há café na chaleira. Nunca gostei de café, apesar da seriedade e solidão de sua figura, que julgo combinar com meu espelho. Vindo do banheiro, o som do chuveiro ligado me ofende. Eu não sou o único homem na Terra? Sigo furioso e firme em direção ao som, pisando roupas lascivas que foram largadas pelo caminho num passado enevoado. A porta do banheiro está aberta. A silhueta se banha displicente. Uma fina cortina separa a sombra do ser, o assédio do desconhecido do pudor da culpa, a vivacidade da decepção. Ajoelho-me e permaneço admirando os contornos que se lavam carinhosamente. A mão da sombra toca a cortina e a desliza. Não há um ser humano sequer. O mundo está vazio e vivo. Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NO OCEANO DE AREIA Lá não se via ninguém, apenas rastros de passagens distantes no já foi e possibilidades de encontros em um por vir difícil de supor. Quando Antônio Deslumbrado finalmente se depara com a indefinição vertiginosa do mar, o que mais lhe prende a atenção são os banhistas, os pescadores e os transatlânticos desbancando a unidade infinita das águas. À primeira vista, o oceano lhe parece tão gigantesco quanto é uma lágrima na terra seca de sua casa. — Oh, quão maravilhosa é a vastidão do meu sertão, cuja maior virtude é não caber em si de solidão! Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NA CAMINHADA CIRCULAR A imensidão que acolhia Antônio antes que este resolvesse descobrir o mundo não era suficiente para suportar tudo o que nele havia de curiosidade e desejo efêmeros. Para o alívio da alma de Antônio Deslumbrado, era preciso abrir a porteira cuja cerca impedia a expansão do horizonte. Em seu caminhar trôpego, Antônio Deslumbrado se depara com um velho andarilho conhecedor de diversos pedaços avulsos do mundo. Este lhe fala da austeridade de Machu Pichu, da dor no teatro japonês, do fervor do cinema indiano e das cores da sequidão. Entretanto, lamenta-se profundamente por ter perdido a consciência divisória de lar, a qual limitaria o espaço para onde gostaria de voltar e descansar neste instante. — A felicidade é o nunca. Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NA BOATE SOLIDÃO Estar só, para Antônio Deslumbrado, era vagar na imensidão dos dois mundos que habitava: o dentro e o fora. Em seu lar, não se corria o risco de ser interrompido em seu vazio, visto que o mínimo de animais que ele poderia encontrar naquelas bandas de secura, todos eles, respeitavam-no, ficando, assim, as divagações livres para suprimir o universo por completo. Antônio Deslumbrado entende menos ainda a cidade à noite, quando as pessoas parecem querer desengolir algo que puseram pra dentro a contragosto. Pára em uma boate, lugar que lhe disseram ser ótimo para espairecer, e encontra um ninho de pessoas ávidas para vomitar seus males, esgueirando-se e se tocando em uma solidão desconcentrada. — O que falta nesta cidade é chão para ficar só e não ser interferido pelos enganos do ego. Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NO TRONCO HISTÓRICO Não é que Antônio Deslumbrado levasse uma vida frustrante. Onde vivia seco, qualquer coisa possuía extensões de seus sentimentos. Tudo a sua volta estava marcado com pegadas de suas recordações, marcas de seu amor e sua melancolia. O que o fez deixar seu mundo de espelhos foi a inquietude nascida no desejo de conhecer tudo o que não era ele próprio. Antônio Deslumbrado chega ao logradouro que lhe disseram ser considerado o bairro histórico da cidade e se sente angustiado. Procura razões nos casarões antigos, na arquitetura luxuosa, nas alamedas simétricas, nos calçamentos de mosaico e nas luminárias dançantes, mas nada sente. Desiludido, pára e descansa sobre as raízes de uma velha árvore cujo tronco, ele vê, está repleto de declarações de amor escritas a canivete em tempos indizíveis. — Graças a Deus! Finalmente encontrei o monumento histórico essencial deste lugar pobre de sinalizações! Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NO PERCURSO DA FOME Maria Doçura, todas as manhãs, dançava milho às galinhas. Não era simplesmente o ato de alimentá-las fisicamente; ela se comunicava e nutria suas almas através dos movimentos encantados e do calor dos seus poemas corporais. Comendo desajeitado algo que conseguira numa bodega generosa, Antônio Deslumbrado é desafiado por um cão de rua. Muito magro, o animal emite um pedido fino e, após receber o alimento cedido por Antônio Deslumbrado, se põe a seguir seus passos. — Venha comigo e descobrirás que comer apenas por fome não é o suficiente quando se conhece Maria Doçura, minha musa. Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico ANTÔNIO DESLUMBRADO NA PRAÇA DAS CAVEIRAS Certas noites, depois que a casa envolvia-se num sono inebriante, Antônio Deslumbrado saltava a janela do quarto para pôr-se diante do cacto que o hipnotizava desde a infância. Seu formato era esbelto e lúgubre: assemelhava-se a um homem moribundo em uma súplica derradeira. Antônio Deslumbrado percorrera diversas situações superficialmente desagradáveis até que, ao se aproximar de uma praça despedaçada, alguém o previne de que está entrando no ambiente mais triste do mundo. Lá, enroladas em pedaços podres de pano e papelão, pessoas feitas apenas de osso e pele gemem e se esquentam umas nas outras. — Ora, estão cegos? Não é esta a real beleza da tristeza que deveriam exibir... Marcadores: Antônio Deslumbrado, Mini-Contos Por drico |
