sexta-feira, setembro 29, 2006
NUM AR
eu pensei em te bater
eu pensei em te xingar
por me matar
de frio
mas o que fazer?
como vou chorar
se você sorriu?
Para Fanny, minha amiga de tantas poucas horas.
sábado, setembro 23, 2006
UM POUCO DE AFETO I
quinta-feira, setembro 21, 2006
sábado, setembro 16, 2006
FURTA-COR
Assim de negro vestido
Sobre minha pele de leo-
Vou seguindo de sorriso
E se perguntam por mim
Difícil me enxergar
Daqui do fim do arco-íris
Com tanto camaleão
Comendo na minha mão
domingo, agosto 27, 2006
DIÁLOGOS
____Comenta: Há uma linha entre nós dois.
Eu: Não vejo linha alguma.
____Comenta: As linhas invisíveis são as mais difíceis de serem vistas.
Eu: Há uma linha entre nós dois?
____Comenta: Há! E há linhas entre quase todas as pessoas.
Eu: Não quero que haja uma linha entre nós dois.
____Comenta: Não há mais!
Eu: Você demora!
____Tesouro: Mas eu estou aqui.
Eu: Não. Há uma linha entre nós dois.
____Tesouro: Isso não é nada. Eu estou aqui.
Eu: Você não entende... as linhas invisíveis são as mais difíceis de serem vistas.
____Tesouro: Você pode me tocar, não pode?
Eu: Não é tão simples. Há linhas entre quase todas as pessoas.
____Tesouro: E o que faremos? Há algo que possamos fazer para remover esta linha?
Eu: Não há mais!
quinta-feira, agosto 24, 2006
SOM, IMAGEM E DESENHO
Faça-me de acento
Em seu grito agudo
´
Insulte-me em tom grave
`
Indicando minha crise
Mas pare neste ponto
.
Tranque-nos a chave
}
Beije-me e trema
¨
sábado, agosto 19, 2006
... DE UM DEUS
... DE UM DEUS
Intro.: Em Am C B7
Em_______________Am
Mais perigoso que cocaína
e coca-cola
Em______________Am
Mais forte do que heroína
______C_ B7_ (Intro)
o meu herói
Em_______________Am
Mais viciante que chocolate
que chá com leite
Em_______________Am
Mais importante que a via-láctea
_________C _B7_ (Intro)_ Em _Am_ C_ D7
minha via-crúcis
Am________D7
E os meus olhos
___________Em___C7___D7
vermelhos de te ver e procurar
Am________D7______________C
de repente já não conseguem mais olhar pros lados
___Am___________________C_ B7_ Em_ Am
E o que não vejo você quer me dizer
C__B7__Em___Am _C_ B7
me dizer... vem
Em_______________Am
Mais perigoso que cocaína...
E os meus olhos
cansados de te ver e procurar
de repente já não conseguem mais olhar pros lados
___ Am
E o que não vejo você quer me dizer?
______C
Ou sou eu que fantasio coisas
____Am_____________C_ B7_ Em
que nem sequer sabes o quê?
Am_ C__ B7_ Em_______ Am_ C_ D7
não sabes o quê e nem porquê
Am________D7
E os meus olhos...
(Intro)
Eu idealizei você
E foi minha melhor idéia
quarta-feira, agosto 16, 2006
LUCIDEZ
(Poema endereçado a mim na fala de um louco no ônibus
— olhavam-no com repulsa só por ele ser louco
e por chacoalhar a cabeça como fazem os gatos
mas não percebiam que tudo fazia parte do ritual do pensar
— fiquei lisonjeado!)
sexta-feira, agosto 11, 2006
GUARDA-CHUVAS
sábado, agosto 05, 2006
ELETRICIDADE

ELETRICIDADE
________do teu cabelo voam
____fios de alto tesão
________que colam em minha boca
____tomada de paixão
________lâmpada orgânica
____________e dor elétrica!
domingo, julho 30, 2006
domingo, julho 23, 2006
P A L A V R A D O R
palavra que larva
dor
lavrador que sou
plantei em mim
um dicionário
univocábulo
palavra: dor
substantivo sujeito
a traças
sexta-feira, julho 21, 2006
ELOGIOS
(Para Isabella)
— Ai que bom que você chegou, não via a hora de falar contigo!
— Por que você escolheu esse restaurante? É tão sem cor...
— Venha, sente-se. Não importa o restaurante, eu preciso te contar uma coisa...
— Você ainda não pediu nada pra beber?
— Eles estão trazendo vinho.
— Que bom!
— Amiga, o Caio foi embora e levou todas as coisas dele, estou perdida.
— Sério?
— Sim, foi ontem durante a noite...
— Que horror! Nossa, será que vão demorar muito a trazer esse vinho? Estou morrendo de sede.
— Ele disse que estava se sentindo sufocado.
— Sei... espera. Garçom!
— Pois não, senhora?
— Você pode me trazer o cardápio junto com o vinho que já pedimos?
— Claro. Só um instante.
— Acho que conheço esse garçom de algum lugar.
— Amiga, o que eu faço? Eu não consigo viver sozinha naquela casa. Ele levou a televisão também...
— É complicado...
— E este problema de desemprego, você sabe, como vou me sustentar?
— Aqui está o cardápio, senhora. E o vinho.
— Obrigada. Hum... muito bom vinho!
— Qualquer coisa é só me chamar.
— Adorei esse garçom. Mas continue, amiga, o que você falava mesmo?
— Eu disse que não sabia como me sustentar. Você bem que podia tentar arrumar um emprego pra mim lá na fábrica do teu pai, né?
— Papai anda distante, não me ouve. Mas você pode ir morar lá em casa.
— Não sei. Se ao menos meus pais me aceitassem de volta, mas quando liguei pra eles meu pai lembrou-me aos gritos que havia me expulsado de casa e não aceitava devoluções.
— Porco.
— Meu pai?
— Não, pra comer. Eles não servem porco?
— Não, Rebeca. Isso é um restaurante de comida japonesa.
— Ah! Por que viemos pra cá?
— Esqueça o restaurante. Eu, na verdade, só queria que o Caio voltasse. Não preciso sair daquela casa, só preciso que ele volte.
— Mas se ele estava se sentindo sufocado... nossa, eles têm bolinhos de arroz! Eu adoro bolinhos de arroz! Vou pedir dezenas desses. Garçom!
— Não tenho apetite.
— Ele deve ter outra.
— Quem? O Caio?
— Claro! De quem estamos falando?
— Já nem sei mais, amiga.
— Ele é tão fofinho!
— Eu sei, eu o amo.
— Estou falando do garçom. Garçom!
— Posso ajudá-la, senhora?
— Sim! Nós queremos cinco desses bolinhos de arroz e os melhores peixes crus que vocês tiverem para nos servir.
— Sushi?
— Cinco!
— Não demoraremos a trazer.
— Obrigada.
— Meu Deus... será que foi aquela biscate do escritório dele?
— Secretária?
— Sim.
— Sem dúvida! Eles adoram secretárias.
— Vou matar ela! Estou desnorteada.
— Gostou do meu cabelo?
— Seu cabelo?
— É. Mudei um pouco o penteado. Puxei mais pra esquerda, vê?
— Aham...
— Está lindo, eu sei!
— Rê, eu tenho que dar um jeito na minha vida. Estou muito dependente deste homem!
— Espera, vou no banheiro e já volto!
(Quinze minutos depois)
— Por que você está chorando, amiga? Aconteceu alguma coisa enquanto eu saí?
— Meu mundo desmoronou... sou praticamente uma indigente!
— Não fica assim... e essa comida que não chega!
— O que eu faço? Não sei trabalhar em nada!
— Já sei! O cabaré!
— O quê? Você está enlouquecendo, Rebeca!
— Não. Lembra que uma vez fomos atrás do meu irmão no cabaré pra avisar que a mulher dele havia descoberto sua infidelidade?
— Onde você quer chegar?
— Foi lá que eu vi esse garçom! Acho que ele é amigo do Gu.
— Rebeca, minha vida está estraçalhada e você fica pensando nessa merda desse garçom!
— Calma amiga, também não é pra tanto.
— Não é pra tanto? Fui abandonada pelo homem que amo, minha família não me aceita de volta, minha melhor amiga não me ouve, não sei trabalhar em nada e meu cartão de crédito estourou. Minha geladeira só tem luz. Não tenho o que comer em casa!
— Peraí, amiga. Você não tem dinheiro pra pagar a conta do restaurante?
— Não tenho uma moeda sequer!
— Ave Maria! Vamos embora que eu não trouxe o cartão de papai!
sexta-feira, junho 30, 2006
RECEITA
- É preciso desligar o cérebro um pouco. Raciocinar apenas sobre coisas desimportantes. Passar horas pensando, por exemplo, em como são breves os mosquitos. É preciso aprender ao avesso. Desocupar a mente com ocupações dementes.
- É recomendável que jogue frases ao ridículo. Encontrar-se com amigos mais íntimos e despreocupar-se quanto aos erros de gramática e de conteúdo. É extremamente saudável que se tenha com quem dizer nada. Mas cuidado, muitas vezes há resquícios do que se esquece no que é dito, portanto, previna a todos e previna-se.
- Você pode ficar só, mas nunca em seu quarto de portas fechadas e luzes apagadas. É preferível que se fique só no meio de alguma multidão. Não que seja menos triste, é meramente uma forma mais acelerada de se alcançar a amnésia seletiva.
- Reconfortante não é ler nem ouvir uma boa música, mas sim tomar banho de rio. Aconselho que se tome banho de rio com crianças sempre que impossível.
- Beber álcool, para os que gostam, é perigoso, pois pode ser benéfico ou simplesmente induzir uma recaída desnecessária. Sendo assim, é melhor que se coma chocolate ou que se chupe limão para evitar pensamentos desviados.
- Olhar de canto, qualquer canto. De algum canto você sai! Como desviar de um pingo de chuva para ser molhado por outro. Isso tudo não passa mesmo de uma bela e incansável tempestade. E não se importar com as imagens repetidas (estas também são incansáveis).
- Essencial é calar quando se fala. Deixar de molho suas idéias deliberadamente implantadas. Fingir que não se sabe a origem do que herdou daquilo que em breve deixará de existir.
- O sexo é necessário (este tópico não sofre risco de oposição e não carece de explicações).
Depois destes passos, esfrie no congelador durante duas semanas. Após esse tempo seu coração estará frio e pedrado. Tire-o e jogue numa bacia com água fervente. Livre das impurezas e amolecido pelo choque térmico, estará pronto para outra queda.
acordo mar
quando sol
a cor do mar
quando mal
acordo só
sábado, junho 10, 2006
IMAGEM PALAVRA
"Comenta gostava de sentar-se à beira do rio às vezes, sempre sozinho. Eu o observava da varanda. Seus pés dentro d’água e as mãos brincando com as pedras. Esporadicamente arremessava algumas no rio e tentava buscá-las a nado. Nunca interrompi estes momentos de solidão, achava prudente deixá-lo com suas memórias inacabadas. Certa vez ele me viu observando sua cumplicidade com o rio e acenou para que eu fosse a seu encontro. Imitei seus gestos de pernas molhadas, um pouco desajeitado por invadir o casulo de alguém, mas também feliz por fazê-lo. Lembro-me bem deste dia, Comenta ostentava uma aparência branda, de sorriso leve e contínuo, e segurava uma rosa triste. Foi a primeira vez que me falou sobre o Cavaleiro Rubro."
Absorto na degustação das idéias que me atormentam sobre o que escreverei e que, na verdade, já fora escrito. Ando meio desligado, sentindo os meus pés num chão de aquém-memória-além. É só um livro. Livro me.
