sábado, setembro 16, 2006

FURTA-COR

FURTA-COR


Assim de negro vestido
um corvo

Sobre minha pele de leo-
pardo que estou

Vou seguindo de sorriso
amarelo

E se perguntam por mim
enrubesço


Difícil me enxergar
Daqui do fim do arco-íris
Com tanto camaleão
Comendo na minha mão

domingo, agosto 27, 2006

DIÁLOGOS

DIÁLOGOS


____Comenta: Há uma linha entre nós dois.
Eu: Não vejo linha alguma.
____Comenta: As linhas invisíveis são as mais difíceis de serem vistas.
Eu: Há uma linha entre nós dois?
____Comenta: Há! E há linhas entre quase todas as pessoas.
Eu: Não quero que haja uma linha entre nós dois.
____Comenta: Não há mais!



Eu: Você demora!
____Tesouro: Mas eu estou aqui.
Eu: Não. Há uma linha entre nós dois.
____Tesouro: Isso não é nada. Eu estou aqui.
Eu: Você não entende... as linhas invisíveis são as mais difíceis de serem vistas.
____Tesouro: Você pode me tocar, não pode?
Eu: Não é tão simples. Há linhas entre quase todas as pessoas.
____Tesouro: E o que faremos? Há algo que possamos fazer para remover esta linha?
Eu: Não há mais!

quinta-feira, agosto 24, 2006

SOM, IMAGEM E DESENHO

SOM, IMAGEM E DESENHO


Faça-me de acento
Em seu grito agudo
´
Insulte-me em tom grave
`
Indicando minha crise
Mas pare neste ponto
.
Tranque-nos a chave
}
Beije-me e trema
¨

sábado, agosto 19, 2006

... DE UM DEUS

canção destinada ao meu destino:




... DE UM DEUS

Intro.: Em Am C B7

Em_______________Am
Mais perigoso que cocaína
e coca-cola
Em______________Am
Mais forte do que heroína
______C_ B7_ (Intro)
o meu herói

Em_______________Am
Mais viciante que chocolate
que chá com leite
Em_______________Am
Mais importante que a via-láctea
_________C _B7_ (Intro)_ Em _Am_ C_ D7
minha via-crúcis

Am________D7
E os meus olhos
___________Em___C7___D7
vermelhos de te ver e procurar
Am________D7______________C
de repente já não conseguem mais olhar pros lados
___Am___________________C_ B7_ Em_ Am
E o que não vejo você quer me dizer
C__B7__Em___Am _C_ B7
me dizer... vem


Em_______________Am
Mais perigoso que cocaína...

E os meus olhos
cansados de te ver e procurar
de repente já não conseguem mais olhar pros lados
___ Am
E o que não vejo você quer me dizer?
______C
Ou sou eu que fantasio coisas
____Am_____________C_ B7_ Em
que nem sequer sabes o quê?
Am_ C__ B7_ Em_______ Am_ C_ D7
não sabes o quê e nem porquê
Am________D7
E os meus olhos...

(Intro)

Eu idealizei você
E foi minha melhor idéia

quarta-feira, agosto 16, 2006

LUCIDEZ

Gente que só a porra naquele ônibus
Amanheceram tudo dormindo...

(Poema endereçado a mim na fala de um louco no ônibus
— olhavam-no com repulsa só por ele ser louco
e por chacoalhar a cabeça como fazem os gatos
mas não percebiam que tudo fazia parte do ritual do pensar
— fiquei lisonjeado!)

sexta-feira, agosto 11, 2006

GUARDA-CHUVAS

GUARDA-CHUVAS


Quando chove, Maceió fica mais colorida do que na primavera. É só sair nas ruas durante um chuvisco para se ver diante de um desfile de guarda-chuvas diversificados e esquisitos, que contrastam com o clima nublado que se reflete nos rostos das pessoas incomodadas pelo frio e pela falta de saneamento que respinga em suas calças.
As ruas do centro da cidade ficam repletas de ofertas tentadoras.
- Temos de todos os preços e tamanhos.
- Eu quero um desses, moço. Quanto é?
- Três pra levar e cinco pra abrir antes!
Tentador! E, onde eles não estão, a tristeza governa. As janelas embaçam em lamento, como se dissessem "saiam daí de dentro, venham contemplar a chuva!". E os que não se sentem atraídos pela solidão trancafiada estão embaixo de algum destes guarda-chuvas. Zeca Baleiro canta "amores secretos debaixo dos guarda-chuvas" e eu me pego imaginando toda a beleza mística deste objeto. É incrível como todos se tornam misteriosamente atraentes quando sob esse inventivo instrumento.
Guarda-chuvas grandes, pretos, pontudos e de cabos sinuosos sobre as cabeças de pessoas sérias. Sombrinhas floridas sustentadas por mulheres sorridentes. Cor-de-rosa, azul e estampado. São verdadeiros desfiles ao ar livre, os dias de chuva. Alguns deles são enormes, mas com uma única pessoa embaixo, e outros minúsculos protegendo duas ou mais. Não há dúvida de que eles possuem um poder de unir as pessoas. O número de abraços cresce consideravelmente durante os dias de chuva devido à aproximação necessária para que duas pessoas abrigadas sob o mesmo guarda-chuva não se molhem. São verdadeiros criados do amor, os danados!
Nosso guarda-chuva pode falar muito da gente. O meu, por exemplo, é pequeno, preto e barato. Quando bate um vento qualquer, por mais fraco que seja, ele já ameaça desmontar. Em uma semana de uso ele já havia desbotado e quebrado um dos talos da sua armação. Ele não consegue me proteger se a chuva é forte. Meu guarda-chuva me denuncia.

sábado, agosto 05, 2006

ELETRICIDADE

eletricidade



ELETRICIDADE
Para Luciana


________do teu cabelo voam
____fios de alto tesão
________que colam em minha boca
____tomada de paixão


________lâmpada orgânica
____________e dor elétrica!



Alguns versos são links para fotos que tirei inspirado na poesia, basta clicar e conferir!

domingo, julho 30, 2006

ECLIPSADO

ECLIPSADO


Eu não te suprimo
quando te exprimo

Tu não és supremo
quando te espremo

O que dizia?
Tu sóis: fugaz
Eu luas: de perdas
Nós eclipses: gases de pedra

domingo, julho 23, 2006

P A L A V R A D O R

P A L A V R A D O R


palavra que larva
dor

lavrador que sou
plantei em mim
um dicionário
univocábulo

palavra: dor
substantivo sujeito
a traças

sexta-feira, julho 21, 2006

ELOGIOS

ELOGIOS
(Para Isabella)


— Ai que bom que você chegou, não via a hora de falar contigo!
— Por que você escolheu esse restaurante? É tão sem cor...
— Venha, sente-se. Não importa o restaurante, eu preciso te contar uma coisa...
— Você ainda não pediu nada pra beber?
— Eles estão trazendo vinho.
— Que bom!
— Amiga, o Caio foi embora e levou todas as coisas dele, estou perdida.
— Sério?
— Sim, foi ontem durante a noite...
— Que horror! Nossa, será que vão demorar muito a trazer esse vinho? Estou morrendo de sede.
— Ele disse que estava se sentindo sufocado.
— Sei... espera. Garçom!
— Pois não, senhora?
— Você pode me trazer o cardápio junto com o vinho que já pedimos?
— Claro. Só um instante.
— Acho que conheço esse garçom de algum lugar.
— Amiga, o que eu faço? Eu não consigo viver sozinha naquela casa. Ele levou a televisão também...
— É complicado...
— E este problema de desemprego, você sabe, como vou me sustentar?
— Aqui está o cardápio, senhora. E o vinho.
— Obrigada. Hum... muito bom vinho!
— Qualquer coisa é só me chamar.
— Adorei esse garçom. Mas continue, amiga, o que você falava mesmo?
— Eu disse que não sabia como me sustentar. Você bem que podia tentar arrumar um emprego pra mim lá na fábrica do teu pai, né?
— Papai anda distante, não me ouve. Mas você pode ir morar lá em casa.
— Não sei. Se ao menos meus pais me aceitassem de volta, mas quando liguei pra eles meu pai lembrou-me aos gritos que havia me expulsado de casa e não aceitava devoluções.
— Porco.
— Meu pai?
— Não, pra comer. Eles não servem porco?
— Não, Rebeca. Isso é um restaurante de comida japonesa.
— Ah! Por que viemos pra cá?
— Esqueça o restaurante. Eu, na verdade, só queria que o Caio voltasse. Não preciso sair daquela casa, só preciso que ele volte.
— Mas se ele estava se sentindo sufocado... nossa, eles têm bolinhos de arroz! Eu adoro bolinhos de arroz! Vou pedir dezenas desses. Garçom!
— Não tenho apetite.
— Ele deve ter outra.
— Quem? O Caio?
— Claro! De quem estamos falando?
— Já nem sei mais, amiga.
— Ele é tão fofinho!
— Eu sei, eu o amo.
— Estou falando do garçom. Garçom!
— Posso ajudá-la, senhora?
— Sim! Nós queremos cinco desses bolinhos de arroz e os melhores peixes crus que vocês tiverem para nos servir.
Sushi?
— Cinco!
— Não demoraremos a trazer.
— Obrigada.
— Meu Deus... será que foi aquela biscate do escritório dele?
— Secretária?
— Sim.
— Sem dúvida! Eles adoram secretárias.
— Vou matar ela! Estou desnorteada.
— Gostou do meu cabelo?
— Seu cabelo?
— É. Mudei um pouco o penteado. Puxei mais pra esquerda, vê?
— Aham...
— Está lindo, eu sei!
— Rê, eu tenho que dar um jeito na minha vida. Estou muito dependente deste homem!
— Espera, vou no banheiro e já volto!

(Quinze minutos depois)
— Por que você está chorando, amiga? Aconteceu alguma coisa enquanto eu saí?
— Meu mundo desmoronou... sou praticamente uma indigente!
— Não fica assim... e essa comida que não chega!
— O que eu faço? Não sei trabalhar em nada!
— Já sei! O cabaré!
— O quê? Você está enlouquecendo, Rebeca!
— Não. Lembra que uma vez fomos atrás do meu irmão no cabaré pra avisar que a mulher dele havia descoberto sua infidelidade?
— Onde você quer chegar?
— Foi lá que eu vi esse garçom! Acho que ele é amigo do Gu.
— Rebeca, minha vida está estraçalhada e você fica pensando nessa merda desse garçom!
— Calma amiga, também não é pra tanto.
— Não é pra tanto? Fui abandonada pelo homem que amo, minha família não me aceita de volta, minha melhor amiga não me ouve, não sei trabalhar em nada e meu cartão de crédito estourou. Minha geladeira só tem luz. Não tenho o que comer em casa!
— Peraí, amiga. Você não tem dinheiro pra pagar a conta do restaurante?
— Não tenho uma moeda sequer!
— Ave Maria! Vamos embora que eu não trouxe o cartão de papai!

sexta-feira, junho 30, 2006

RECEITA

RECEITA




  • É preciso desligar o cérebro um pouco. Raciocinar apenas sobre coisas desimportantes. Passar horas pensando, por exemplo, em como são breves os mosquitos. É preciso aprender ao avesso. Desocupar a mente com ocupações dementes.

  • É recomendável que jogue frases ao ridículo. Encontrar-se com amigos mais íntimos e despreocupar-se quanto aos erros de gramática e de conteúdo. É extremamente saudável que se tenha com quem dizer nada. Mas cuidado, muitas vezes há resquícios do que se esquece no que é dito, portanto, previna a todos e previna-se.

  • Você pode ficar só, mas nunca em seu quarto de portas fechadas e luzes apagadas. É preferível que se fique só no meio de alguma multidão. Não que seja menos triste, é meramente uma forma mais acelerada de se alcançar a amnésia seletiva.

  • Reconfortante não é ler nem ouvir uma boa música, mas sim tomar banho de rio. Aconselho que se tome banho de rio com crianças sempre que impossível.

  • Beber álcool, para os que gostam, é perigoso, pois pode ser benéfico ou simplesmente induzir uma recaída desnecessária. Sendo assim, é melhor que se coma chocolate ou que se chupe limão para evitar pensamentos desviados.

  • Olhar de canto, qualquer canto. De algum canto você sai! Como desviar de um pingo de chuva para ser molhado por outro. Isso tudo não passa mesmo de uma bela e incansável tempestade. E não se importar com as imagens repetidas (estas também são incansáveis).

  • Essencial é calar quando se fala. Deixar de molho suas idéias deliberadamente implantadas. Fingir que não se sabe a origem do que herdou daquilo que em breve deixará de existir.

  • O sexo é necessário (este tópico não sofre risco de oposição e não carece de explicações).



Depois destes passos, esfrie no congelador durante duas semanas. Após esse tempo seu coração estará frio e pedrado. Tire-o e jogue numa bacia com água fervente. Livre das impurezas e amolecido pelo choque térmico, estará pronto para outra queda.








acordo mar



quando sol
a cor do mar
quando mal
acordo só

sábado, junho 10, 2006

IMAGEM PALAVRA

AS MALABARÍSTICAS E INGENIAIS VIDAS INVENTADAS DE CÉSAR COMENTA, O SEM-MEMÓRIA

"Comenta gostava de sentar-se à beira do rio às vezes, sempre sozinho. Eu o observava da varanda. Seus pés dentro d’água e as mãos brincando com as pedras. Esporadicamente arremessava algumas no rio e tentava buscá-las a nado. Nunca interrompi estes momentos de solidão, achava prudente deixá-lo com suas memórias inacabadas. Certa vez ele me viu observando sua cumplicidade com o rio e acenou para que eu fosse a seu encontro. Imitei seus gestos de pernas molhadas, um pouco desajeitado por invadir o casulo de alguém, mas também feliz por fazê-lo. Lembro-me bem deste dia, Comenta ostentava uma aparência branda, de sorriso leve e contínuo, e segurava uma rosa triste. Foi a primeira vez que me falou sobre o Cavaleiro Rubro."

Absorto na degustação das idéias que me atormentam sobre o que escreverei e que, na verdade, já fora escrito. Ando meio desligado, sentindo os meus pés num chão de aquém-memória-além. É só um livro. Livro me.



flor triste

quarta-feira, maio 24, 2006

SONETO PRA VOCÊ

MEU BEM


Sendo você meu bem
o que haverá de mau?
E eu quem serei, ou qual,
sendo você, meu bem?

Se perguntarem quem
me tornei, ou se qual,
digo que estou normal,
digo que estou alguém.

E, já que é você, bem meu,
o que encontrou em si,
nestas palavras leu

o que virei aqui,
grita que foi só eu
que descobriste em ti.

quinta-feira, maio 18, 2006

DESVIO

POESIA


- Eu acabei de te conhecer, logo após ter te conhecido e vindo de sucessivas vezes que te conheci e nem lembro quantas. Parece que já te conheço de algum lugar (antes de ter te conhecido, que fique claro), porque não me é surpreendente esse seu jeito inovador de me deixar atônito, nem é assustador esse seu ar sombrio com que me queima a carne.
(Que leve, você sorrir assim, já havia feito isso antes?)



PROSA


Preocupada consigo
A tarde seguia

Passarinhos pousaram a seu pé
Seu canto não comovia
Em marcha de ré
A tarde seguia

Choveu um bocado só pra ver
Se alguma coisa ela ouvia
E, sem perceber,
A tarde seguia

Um homem chorou de dor demente
Pranto que a terra não lambia
Indiferente
A tarde seguia

Vieste tu e tocaste de leve
O rosto deste fim de dia
O instante breve
A tarde seguia

E, deixando o mar em cor de trigo,
Por essa mão já se perdia
Abraçada contigo
A tarde dormia

sábado, maio 06, 2006

PALAVRAS CRUZADAS

PALAVRAS CRUZADAS


Estou querendo dizer algo alegre... porque parece que tenho um esguicho de ilusões mórbidas, e eu hoje estou de sorriso convalescente, ou melhor, etéreo. Então eu vou sim dizer algo animador, e, por favor, não se assustem se parecer que sequer fui eu quem escreveu, já que, em mim, as frases têm o ditoso costume de se formar com palavras em ordem soturna (contraditório?). Mas eu vou pronunciar qualquer coisa de felicidade que de meu corpo teima escorrer em forma líquida de letras, não se assustem.
Primeiro convenço a mim mesmo de que posso fazê-lo, e sei que posso. Corro atrás de cada letra fugidia, de cada vocábulo brincalhão, difícil lidar com esse tipo de palavra, elas podem ser grandes companheiras, mas são orgulhosas e não são fáceis de conquistar. Consigo capturar uma interjeição no alto de uma pilha de vogais, a exclamação a denunciou. Depois encontro um artigo escondido atrás de uma árvore, que me mostra dois travessões disfarçados de folhas (artigos costumam ser dedos-duros, sempre denunciando os substantivos). Vejo uma palavra dando sopa na beira de um rio de sílabas átonas, mas, quando salto pra capturá-la, acabo tonificando as sílabas e na confusão deixo escapar uma das letras da palavra que perseguia, deformando-a e fazendo com que ela chore por ter perdido toda a felicidade que continha. Ainda consigo pegar um ponto cansado e uma parte oca de um verbo que se desprende de um casulo. Algumas letras começam a me rodear cantando e dançando, no começo penso em um modo de raptá-las todas de uma vez, mas percebo que seria impossível. Então, entro na roda e canto sem notas e orações, elas sorriem e me acompanham deliberadamente. Considero minha frase suficientemente composta... vamos ver se está feliz o bastante:

___arde__oco______________— a_______ver__o céu. Ah!

Confesso que meu mau-costume de ver entusiasmo na tristeza nem me fez perceber o quanto a frase lamentava. Foi o arde, que continuava a resmungar pela perda de sua primeira letra, quem me alertou para a escuridão da imagem. Procuro, então, soluções para minha triste frase feliz, não achei que seria tão difícil lhes dizer algo entusiasmante.
Estou andando sem destino e nenhuma consoante sorri, estou quase perdido e de olhos fechados quando esbarro em algo que cruza meu caminho. Com o choque, a pequena preposição cai desprotegida, eu a abraço. Quando a levo para junto da minha frase, ela cisma com um artigo que, segundo a própria, está mal alinhado e precisa de força comunicativa. Foi daí que eles comungaram e desalinharam ainda mais minha oração, o que animou a evolução da informação. Depois, sou interceptado por um verbo apressado que procura "o formador da frase alegre". Eu logo aceito que este deve ser eu, e dou a ele o aconchego que procura, ouvindo-o reclamar de sua rígida conjugação pretérita... será difícil solucionar este problema, mas ele mesmo sorri quando entende que deve juntar-se a um verbo que já se dispunha no lugar e que, unidos, formarão outro com sentido diferente do que ambos carregam. Por último, escuto um zumbido acompanhado de asas enormes que rodeiam um arbusto por aqui. Não consigo entender do que se trata, apenas ouço o zumbido e vejo o bater das asas. Sento em frente ao arbusto e medito por horas. Que lição! Palavra é imagem, eu me digo. Bastou que eu percebesse que se tratava de um inseto e o nome saltou sobre mim, rolando na grama e compondo o que eu considero ser minha frase feliz já completamente formada. E assim ela fica:

___arde__oco__— inseto______— a______viver do céu. Ah!

Comemoro bobamente o que parece uma celebração satisfatória da beleza. Algumas palavras sorriem comigo, mas não o arde. Este chora e estrebucha pedindo que eu encontre sua letra perdida, chama-me de burro, e aponta para uma falha substancial: o inseto oco perambula na agonia, não no gozo. As palavras cochicham, concordam, e eu nem tenho tempo para pensar que sou o mais feliz dos poetas.
Volto a procurar soluções para minha difícil construção frasal, e já começo a pensar que não sou capaz de tamanho invento. Não sou possuidor da melhor das estimas. Navegando nestes pensamentos quadrados, ouço um clique sob meus pés e, ao baixar os olhos, descubro que estou acionando a denotação de uma palavra, fazendo ela nela. O mesmo ela entra para minha frase como ação que estranha o todo (algo muito feliz de se fazer com denotações). Continuo minha busca, agora quase labiríntica, até que encontro quatro letras agonizando sob a sombra de uma rocha de imperativos. O arde começa a saltar de alegria ao rever sua parte faltosa, e volta a ser tarde. Duas das outras letras imprensam o vazio da imagem e sensibilizam, profundamente, a acidez de um verbo. A última das letras agonizantes artiga-se e vem apontar para minha criação como se dissesse, através de mim, "vejam o que eu estou pensando".

A tarde tocou — inseto______— a tecla viver do céu. Ah!

Agora eu sei que o dito não é melancólico. Mas o inseto está preso de uma forma inquietante dentro dos travessões, está quase deslocado do resto da frase, e isso me incomoda. Não estou satisfeito, já sei que é muito complicado achar alguma real satisfação em mim. O gargalhar das letras não permite mais que eu procure soluções para as deficiências da minha invenção gramatical, fico apenas a admirá-las.
Um corpo senta próximo a mim e pergunta como a tarde toca a tecla. Olho para o ser ao meu lado, mas não há ninguém ali além da voz que repete a pergunta. Como a tarde toca a tecla? Passo muito tempo pensando em como a tarde poderia tocar a tecla, se vou qualificar o toque, é preciso um advérbio. Mas qual? A inquietude do inseto continua a me causar incômodo e, enquanto encaro aquela prisão de travessões, um nome toma meu corpo, ao que eu cuspo uma significação sobre o inseto. E eis que se forma um advérbio e minha frase se completa:

A tarde tocou — insetamente — a tecla viver do céu. Ah!

E, assim, digo-lhes algo de feliz que, hoje, habitou em mim.
Mas permita que eu lhes conte um segredo:

Acredito que existe uma voz de outro poeta neste verso meu.

Mas isso é segredo nosso!