sexta-feira, fevereiro 15, 2008

QUINZE

QUINZE


Nosso dia:
a realidade pesa
tanto que fantasia.

terça-feira, fevereiro 12, 2008

EXPOSIÇÃO DE LEÔNIA

EXPOSIÇÃO DE LEÔNIA



Leônia sente muito
prazer
em desprezar o que ama
profundamente
por um dia

Leônia empilha os cacos do seu passado
em grandes montes de decepções
que larga pelas ruas
como rastro

Satélites curiosos
estudiosos do coração desprecedente de Leônia
captam expressiva arte moderna
de lágrimas solitárias gozos fúteis
e risos sarcásticos
nas ruas descartadas
do mapa mundi
de Leônia

O oceano de lixo fomentado por Leônia
sofre duríssimos terremotos
enquanto ela sorri de seu casulo

A alma de Leônia é inabalável
porém seu corpo sofrerá duras deformidades
com o advento da Grande Catástrofe
a qual transformará todo o universo de presentes de Leônia
numa descomunal avalanche de passados reprimidos

terça-feira, janeiro 29, 2008

Haicai II

Vivo o ilógico passado:
quanto mais longe,
ao lado.

sexta-feira, janeiro 11, 2008

A-MAR

A-MAR


o mar em meus olhos
___está concentrado
como um pingo
___em corpo plano

inconsciente
___eu te oceano

terça-feira, janeiro 08, 2008

INVASIVO

INVASIVO

Quando parei frente ao espelho pela última vez, ele, a imagem refletida, não me olhava. Olhava para ele, o outro eu, e para ele eu parara de olhar. Foi naquele exato e fugaz momento de estupidez que minha sanidade se deu conta de sua demência ao manter uma imagem dupla involuntária. Meu espelho o abraçava e, aos poucos, rachava-se. Admirei-me dividido em minúsculos eus, espalhados por aquele imenso corpo de vidro, e eus o abraçavam amorosamente; minhas palavras na boca do meu duplo.
Meçamos, então, a fatalidade deste caso: um espelho que me reflete desprende-se de mim e retoma uma vida por mim abandonada. Quem guia o espelho? Minha imagem ou sua estrutura? Qual de nós ele há de querer? E qual realmente vê?

sexta-feira, janeiro 04, 2008

AMOR DO MUNDO

AMOR DO MUNDO


Intro.: C9 D/F# A9 F6

(C9 D/F# A9 F6)
a lua virou holofote
teu corpo virou meu bote
_______________________Dm7 Am7
minhas mais recentes lembranças
Em7 ________FM7
viraram toda minha vida

a boca virou imã
teu nome virou rima
teu sorriso virou meu
descanso onde a tarde dorme

silêncio virou confissão
certeza talvez não
o toque da tua mão
virou cura pra minha vaidade

Dm7 Am7 CM7 Dm7 CM7 Am7
só posso ser um sendo teu
Dm7 CM7 Am7 Dm7 Am7 CM7
só vejo o mundo quando teu
e sou só meio, se não for teu
pra ser inteiro só sendo tu
a razão, perco se não te vejo
pra ser eu mesmo só sendo teu

G7 ____________F7 ____Em7
o meu tesouro você me deu
___________F
e eu pergunto:
G7__ Bb7_ F7 ____Am7 __G7____ F7 ___C
onde guardar o amor de todo o mundo?

segunda-feira, dezembro 31, 2007

DESEJOSO

DESEJOSO


quero-te para choque
para chocolate, para
cara a cara
meu topázio, ônix
minha jóia rara
minha cara fênix
quero-te para o pó
para o posso tudo ou nada
quero-te por perto
quero-te concreto
quero te ser, ave
teu reflexo, reflito
não te quero para entrave
quero-te para atrito

quinta-feira, dezembro 27, 2007

.I

A chuva me prende ao beiral do abandono.

quarta-feira, dezembro 26, 2007

MOONLHER

MOONLHER
para Sâmalla



tu tens o mar no teu quarto
que amanhece sempre que te acordas
espalhando conchas sobre a cama
e areia no chão que pisas descalça

o céu pousa em teus cabelos vermelhos
e é aurora teu olhar sonolento
toda a maresia se concentra no teu hálito
quando falas tal qual uma gaivota sorridente

há ondas que se formam nas curvas da tua cintura
e vêm quebrar na tua virilha
assanhando as algas das tuas costas
e brincando nas tuas cavidades submersas

e, quando adormeces, eis o crepúsculo!
é nesta hora que toda a natureza paira
e observa o quanto deus foi sábio
restringindo a imensidão às extremidades do teu corpo

quinta-feira, dezembro 20, 2007

IMPROVISO SOBRE ONTEM

IMPROVISO SOBRE ONTEM


revivendo ou recriando-
___as?

reestruturando as ligações
para tapar fendas espaciais
cobrindo com cimento
os defeitos transversais
como olvidar os ais?
como desmistificar os acertos
temporais
entre eu e elas?
como ser convincente
da falta que não farão?
revivendo ou recriando-as?
como catalogar?
lembranças sempre lembranças
vidas embalsamadas
interferências no galgar
dos que se atrevem a reviver
ou simplesmente recriar

sexta-feira, dezembro 14, 2007

DECLARAÇÃO ÚLTIMA

DECLARAÇÃO ÚLTIMA


do que fui o que sou
um freqüente entrave
um lamento podado
escondido e mostrado

do que foste o que és
do que és nada foste
senão este rir
que se riu também rui
e se rio não é do
que sou, mas do que fui

do que fui o que sou
um freqüente entrave
um lamento podado
escondido e mostrado

quarta-feira, dezembro 12, 2007

DO SONHO CONTÍNUO

DO SONHO CONTÍNUO


Todos os dias, ao acordar, eles trazem consigo uma recordação de seus sonhos: tampas de garrafa, vestidos manchados, sapatos quadriculados, penas de andorinhas mortas, sofás vermelhos, colares de pérolas, escadas de madeira degradadas pela ação dos cupins. Os sonhos, nem sempre fixados, se perdem nos escoamentos da memória; os objetos, porém, enfeitam as casas, ruas, escritórios, bares e universidades de suas vidas reais. Distraídos, eles não percebem o que passou a existir de ontem para hoje em seu mundo, e não se dão conta do que trazem consigo das noites desacordados.
Não se sabe exatamente quando aconteceu: tantas foram as lembranças trazidas dos sonhos, e tão presentes eles se tornaram, que não se pode enxergar a linha que divisa realidade e imaginação. Já não faz diferença acreditar que se vive na realidade se ao sair de casa eles calçam sapatos de um passado onírico. Tampouco vale crer que os sonhos são formas etéreas impossíveis de se alcançar se todos os dias eles confundem um rosto real com um sonhado em noites anteriores; e que são, sim, o mesmo.

sexta-feira, novembro 30, 2007

AGRIPINO E A NOITE

Agripino e a Noite


Escurece no canavial e todos os vazios tomam a consistência abismal da noite. Um besouro que voava sobre o asfalto, à margem das estacas de cana, desviando-se do feixe luminoso do farol de um automóvel, penetra, zunindo, a densa vegetação e, ao ser engolido pelo breu, cala de imediato. Instantes depois, reaparece um pouco mais a frente com seu zunzum rasgado, mas é novamente sugado pelo silêncio negro. E não retorna.
O que durante o dia serve como passagem entre as folhas ásperas do canavial, seus cortantes espaços desocupados, sob a ocorrência de um céu ausente de luar e coberto por espessas nuvens escuras, torna-se uma confusa pasta preta, cuja matéria consiste em uma solidez vaporosa que pode tanto perpassar o corpo do besouro que ali se aventura cegamente, como bloqueá-lo de súbito. No misterioso decorrer das madrugadas, as distâncias se comprimem. Porém o que se chocou ao besouro atordoado não foi uma nesga da noite incorporada ao vazio. Poderia muito bem ter sido, e até seria mais aceitável, sendo tão mais palpável, àquela hora e à distância daquele canavial ao mais próximo ser humano, a escuridão sem forma, mas absoluta, do que o corpo incerto das coisas existentes, que, sem a iluminação adequada, aos olhos humanos, parecem menos dignas de confiança. Sob a inexistente luz esbranquiçada das estrelas encobertas, a parede de tijolos é quase transponível.
Trata-se de uma residência no meio do canavial, tão rente à vegetação que deve ter brotado do solo árido. Possivelmente fora plantada, como tudo no local. E nesta casa vive Agripino. Sentado frente a uma mesa solitária, entediado e ansioso, raspando com a unha a madeira degradada do móvel, ele assiste a passagem das horas. É muito monótono, para Agripino, viver naquele fim de lugar algum. Nunca há o que fazer. Não pode trabalhar no cultivo da cana-de-açúcar, ou mesmo em seu corte, pois é sempre escuro demais; também não se dedica a trabalhos domésticos, sendo tão tarde para este tipo de atividade; não há como sair para brincar, tampouco consegue alguém para conversar, já que é sempre hora de dormir. Desta forma, está sozinho em seu alvéolo noturno, onde, se passível é de se imaginar, a noite é ainda mais apertada e lenta.
O besouro pousou próximo à sua mão. No breu orgânico da casa, todo ser vivo parecia possuir uma claridade própria, e foi através da luz do besouro, caracterizada pelo zinido indiferente de suas asas, que Agripino atentou à sua presença. A mão do homem e o corpo do inseto encontravam-se a poucos centímetros de distância: as asas deste estremeciam enquanto os dedos daquele tamborilavam. Os olhos do homem analisavam a movimentação estranha do inseto sobre a mesa: insegura, mas precisa e rápida; rígida, sólida. Impossível seria captar tudo o que meditou Agripino no decorrer do tempo que despenderam a se encarar, até que os primeiros filetes de sol despontaram pelas minúsculas frestas do telhado a desintegrar o corpo da noite. Um raio de luz muito branco pousou sobre a mesa de madeira, exatamente no ponto em que jazia a mão de Agripino, que desapareceu de imediato, assim como sumiu todo o seu corpo à medida que a claridade da manhã penetrava a penumbra da casa e varria a presença da escuridão como faz uma lâmpada.
O besouro levantou vôo, alcançou umas das fendas do telhado e saiu para o canavial, onde agora já voltara a existir os espaços vazios do dia, que permitem ao inseto uma movimentação despreocupada entre as fissuras da realidade.

quarta-feira, outubro 10, 2007

MAR & CIA

MAR & CIA


não feche os olhos
não tranque a porta
não fique morta
de cansaço
não se aposente
não se retire
dos aposentos
não desfaleça
não se esqueça
que o laço solta
e um dia volta
do mar longínquo
o seu amado
com muito afinco
no regressar
e garças loucas
no céu da boca
para te dar

quinta-feira, setembro 20, 2007

DO SEU CALAR

DO SEU CALAR


meu amor
não se move
o meu love
só se perde
perde tanto
que nem say
sempre muda
sempre mudo
sempre sexy
como antes
e eu só peço
o que eu want
para mim:
alfabeto
nunca falte
há lá in?
cá tão out!