terça-feira, maio 29, 2007
PARA A OUTRA PONTA DO MEU CORDÃO UMBILICAL
eu gostaria de escrever o mais belo poema
ausente em tudo de mim
e esculpido por borboletas
e perfumado de jasmim
e pontuado de estrelas apagadas
mas, em se tratando de você
não consigo ser poeta
gostaria de poder dedicar-lhe minhas melhores metáforas
com minhas imagens mais surpreendentes
só porque você pediu
e porque me olhou como minha mãe
e foi como se eu tivesse nascido naquele momento
e me deu vontade de chorar
pra te mostrar que sou saudável
mas, em se tratando de você
minhas letras se esvaem roxas
eu tentei ser fantástico, ser único
pra te presentear com um poema emoldurado
de palavras coloridas e música de passarinho
pois achei que assim você esperava
mas os meus versos saem conto
em se tratando de você
o meu parágrafo perde o ponto
final da história infinita
dos nossos umbigos profundos
eu queria usar palavras inesperadas e difíceis
ou apenas bonitas e engraçadas
como é você
eu queria dizer pulverizador
mas minhas idéias se pulverizam
e meu poema fica assim previsível e comum
como sou eu
em se tratando de você
quarta-feira, maio 16, 2007
terça-feira, maio 15, 2007
sexta-feira, maio 11, 2007
quinta-feira, maio 03, 2007
TEMPESTADE
temporada de temporais
no nosso telhado
trovões e raio
o só de sempre
deitado de lado
tá faltando cor
na nossa fachada
tá faltando brasa
na brisa de maio
temporada de temporais
no nosso telhado
mas chega pra cá
que não curto circuito
fechado
sexta-feira, abril 13, 2007
TEMPO VERBAL
o certo é não ter vírgula
entre um e outro
e acabar com o travessão
atravessado na garganta
o certo é serem um ponto
nada de reticências
um único ponto
sincero e preciso
geometria perfeita
feita de corpos sobrepostos
postos à prova dos nove
minutos
segunda-feira, abril 09, 2007
RUMOR INTERNO
Quando se pega pensando na
razão pessoal e filosófica
que leva os besouros suicidas
a se lançarem contra os pára-brisas
é que um homem percebe o quanto está realizado
Ali não precisávamos de mais nada
(a televisão mais próxima ficava a três dias de distância)
tínhamos tudo
e a terra nos chamava pelo nome
Éramos signos uns dos outros
e dignos
de sermos todos o mesmo
Num particular partilhado
cada partícula era o absoluto
e todo fundamental, uma parte
Mas voltamos...
Renata disse que
(eu concordei)
E Oliver
com uma (bela e) certa sede poética
apontando o horizonte:
(que luz teria orgulho de apagar o céu noturno?)
Havíamos levado tudo:
E apenas voltou conosco
uma saudade triste e grata
acenando para o passado
pela janela traseira
do carro
segunda-feira, abril 02, 2007
ILHA DESERTA
No Havaí que havia aí
meu tornado virou sopro
o meu coco, açaí
minha casa pegou broca
tsunami, pororoca
meu silêncio virou cri
No Havaí que havia aí
meu Beethoven virou hula
o meu clássico, uma bula
minha harpia, colibri
minha erva virou pó
o meu clique virou pi
No Havaí que havia aí
minha costa virou grão
o meu pão virou migalha
minha tralha virou me
tempestade, então garoa
oceano, então lagoa
minha certeza virou se
No Havaí que havia aí
meu horizonte virou arco
o meu caro saiu free
o meu céu virou pintura
Oceania, Cingapura
Oiapoque virou Xuí
No aí que havia aqui
Havaí virou nordeste
armadilha virou teste
margarida, bacuri
No Havaí que havia aí
minha repulsa virou gozo
e minha calma, frenesi
domingo, abril 01, 2007
PENSAR NISSO
sábado, março 17, 2007
BARULHO NA CIDADE
quinta-feira, março 08, 2007
NADA OU QUASE
Eis um recorte de uma das aventuras que vivi com meu amigo Vicente Marinho (acho que pelo gosto) na época em que filmávamos um documentário inútil. Tão ínfimo, ou mais, quanto nossas pretensões.
— Ei, garotos, o que vocês estão fazendo aí?
— Nada, moço, estamos só filmando algumas latas enferrujadas, folhas secas e borboletas que rastejam. Coisas desprezíveis.
— Hum... e de onde são vocês?
— Somos alunos. Estamos em pesquisa acadêmica.
Vinte minutos depois...
— À esquerda vocês podem ver o pássaro Tuiuiú e, logo ali na frente, um belo exemplar de águia-chilena.
— Nossa, é incrível! Chega a ser amedrontador!
— Olha aqui o Tuiuiú, Vicente. Eu sabia que ele era imenso assim.
— “... mais importante por seus pronomes do que por seu tamanho de crescer”.
— Exatamente!
— Você acha que deveríamos filmar isso?
— Não, não vamos desperdiçar bateria!
— Esse cara deve estar pensando que somos loucos.
— Moço, que pássaro é aquele que está sobrevoando a reserva? Ele voa tão baixo e parece ser lindo.
— Aquilo é um urubu, rapaz!
— Vai Vicente, não perde a oportunidade. Filma! Filma!
Aquele homem havia nos viciado em nada ou quase.
quinta-feira, fevereiro 15, 2007
SEM TÍTULO
Ele pulou.
Do outro lado o infinito cintilava.
(Quando criança sonhava ter atrás da casa da madrinha uma floresta
e atrás da floresta o abismo e Marte)
Ninguém se aborreceu com sua audácia
mas não podia seguí-lo.
Era impossível para Ninguém pular o muro do horizonte.
terça-feira, fevereiro 13, 2007
CONTEXTO
Fui encontrar no dicionário
uma palavra nada óbvia
que pudesse presenteá-la
com uma rima surpreendente.
Mas, veja só, minha flor,
vamos tomar cuidado,
guardemos nosso amor
no cofre atrás do armário.
Eu vi, eu vi:
ele é fungível!
sexta-feira, fevereiro 09, 2007
HOJE A NOITE É BELA
domingo, janeiro 28, 2007
EM GULA
da primeira vez
que lhe falei Leminski
você me perguntou
se era de comer
e eu não entendi que
estava diante de uma
exímia degustadora
de poemas