quarta-feira, novembro 19, 2008

ANTÔNIO DESLUMBRADO - FOME

ANTÔNIO DESLUMBRADO NO PERCURSO DA FOME



Maria Doçura, todas as manhãs, dançava milho às galinhas. Não era simplesmente o ato de alimentá-las fisicamente; ela se comunicava e nutria suas almas através dos movimentos encantados e do calor dos seus poemas corporais.

Comendo desajeitado algo que conseguira numa bodega generosa, Antônio Deslumbrado é desafiado por um cão de rua. Muito magro, o animal emite um pedido fino e, após receber o alimento cedido por Antônio Deslumbrado, se põe a seguir seus passos.

— Venha comigo e descobrirás que comer apenas por fome não é o suficiente quando se conhece Maria Doçura, minha musa.

terça-feira, novembro 18, 2008

ANTÔNIO DESLUMBRADO - TRISTEZA

ANTÔNIO DESLUMBRADO NA PRAÇA DAS CAVEIRAS



Certas noites, depois que a casa envolvia-se num sono inebriante, Antônio Deslumbrado saltava a janela do quarto para pôr-se diante do cacto que o hipnotizava desde a infância. Seu formato era esbelto e lúgubre: assemelhava-se a um homem moribundo em uma súplica derradeira.

Antônio Deslumbrado percorrera diversas situações superficialmente desagradáveis até que, ao se aproximar de uma praça despedaçada, alguém o previne de que está entrando no ambiente mais triste do mundo. Lá, enroladas em pedaços podres de pano e papelão, pessoas feitas apenas de osso e pele gemem e se esquentam umas nas outras.

— Ora, estão cegos? Não é esta a real beleza da tristeza que deveriam exibir...

segunda-feira, novembro 17, 2008

ANTÔNIO DESLUMBRADO - NOITE

ANTÔNIO DESLUMBRADO NA NOITE ENDIADA



A densidade da escuridão onde vive Antônio Deslumbrado é tanta que se tem a impressão de que mais perto está o longínquo e que dificilmente se alcançará o que deveria estar a três passos. Desta forma, os habitantes do lugar, à noite, guiam-se mais pela lembrança do que pelos sentidos.

Passadas esquinas com postes de iluminação, semáforos, anúncios luminosos e faróis de automóveis, Antônio Deslumbrado avista um beco moribundo que abre uma pequena listra negra adjacente ao brilho incandescente da cidade anoitecida e penetra o breu.

— Enfim, um lugar de onde ainda não roubaram a graça essencial da madrugada...

sexta-feira, novembro 14, 2008

ANTÔNIO DESLUMBRADO - TEMPO

ANTÔNIO DESLUMBRADO NA NOITE ANACRÔNICA


Na secura em que vivia, Antônio Deslumbrado era abençoado pelos grilos. O passar do tempo, quando escuro, era contado na cadência do canto do inseto. Assim, a noite acontecia de mansinho e dava dobras em seu trajeto.

A cidade à noite apaga o fulgor das estrelas mais próximas e inibe as manifestações sonoras do tempo. As buzinas e os letreiros distraem os transeuntes e aceleram o compasso dos segundos. Por mais que se empenhe, é impossível para Antônio Deslumbrado prolongar a passagem, aqui fugaz, de um grilo em sua atividade frustrada.

— Quanto mais este mundo imenso alarga, tão maior se torna a minha casa!

quinta-feira, novembro 13, 2008

ANTÔNIO DESLUMBRADO - BONECAS

ANTÔNIO DESLUMBRADO NA CASA DAS BONECAS



Antônio Deslumbrado deixou seu lar aos cuidados de Maria Doçura, que o divinara para seu ainda moça. Na casa que compartilhavam, a secura era distraída pelos risos vívidos que Maria espalhava nas paredes feito enfeites de um natal permanente.

Divagando pelas ruas da descoberta recente, Antônio Deslumbrado acaba entrando numa loja de brinquedos, e nesta descobre a casa das bonecas. O cubículo muito iluminado parece refletir o brilho nos olhos e no sorriso satisfeito das meninas que apertam os objetos para ouvir as frases gravadas dentro deles: “Vamos brincar!”.

— Se vocês conhecessem Maria, minha musa, veriam o quanto é mais divertido quando não temos que ativar algo para nos sublimar, pois, assim, podemos sempre ser arrebatados de surpresa!

quarta-feira, novembro 12, 2008

ANTÔNIO DESLUMBRADO - CHEGADA

ANTÔNIO DESLUMBRADO NO ARCO DA CHEGADA


Quando desapareceu de onde vivia seco, Antônio deixou para trás apenas lembranças dos gestos sonhadores e da voz que anunciava: “volto somente quando descobrir do que é feito o mundo fora desta lonjura eterna”.

Depois da longa caminhada, Antônio Deslumbrado adentra a cidade barulhenta com pés taciturnos. Numa praça, crianças encantadas rodeiam o homem que faz Deus com marionetes maltrapilhas. Nada desvia a infância dos olhares congelados, sejam os das crianças, sejam os de Antônio Deslumbrado.

— Vai ver o mundo nem é tão vasto e desconhecido como dizem...

segunda-feira, novembro 10, 2008

CORROSIVO

Corrosivo


Mim é uma rata incompreendida. A paixão é coisa burra, repete Mim para Si, mas como não amar um gato assim gentil e de pêlos flutuantes? A paixão é coisa burra, disse um dia Si a Mim. Eu sou burra, eu sou burra, burra! Mim matutava e perambulava distraída. Então, craque!, foi capturada pela ratoeira e sequer comera o queijo. Burra, burra, burra! E a única preocupação da pequena rata em tão crítico momento era que a visse o gato estúpido, já que decerto tentaria salvá-la, e a paixão é coisa burra, muito burra, para Mim.

CLOÉ E OS ENCONTROS

CLOÉ E OS ENCONTROS



Cloé,
mulher de várias faces,
circula sem destino,
mas objetivada.

Aprendeu com as esquinas
um truque fabuloso:
de um olhar para outro,
a cidade, em burburinho,
embebeda-se em orgias
e orgasmos controlados
pelos raios invisíveis
dos desejos da
mulher.

Cloé,
mulher de várias faces,
saiu ilesa de guerras milenares
e arrebatamentos sem igual.

Agora, trabalha nas ruas
por felicidades mudas.

segunda-feira, novembro 03, 2008

ACERTADO

ACERTADO



fogo felino
num dado encantado
fulgor de menino

quinta-feira, setembro 11, 2008

CEREBRAL

CEREBRAL


o poema do brejo
preso no capão
apenas vejo
com minha mão

quinta-feira, setembro 04, 2008

ANIVERSAR

ANIVERSAR



vinte e dois
dois dois
vinte e dois

os anos lançam pedras
na vidraça das minhas perspectivas

quatro de setembro
de dois mil e oito
vinte e dói
a dor de sempre

não tenho mais a idade dos autores jovens
em sua primeira publicação
tampouco a dos experientes

não serei aclamado em minha estréia
visto que estou aqui
um salto após o que quero
e nu
sobre o palco iluminado do teatro vazio

não tenho a vivência dos adultos
já não me cabe a euforia dos adolescentes
estou como ninguém além de mim

estou no mesmo lugar
em que estive ontem

estou no mesmo corpo
em que estive ontem

estou no mesmo hoje
em que estive ontem

o ano é outro
mas o tempo é o mesmo

e a idade é um selo que o homem encarnou

vinte e dois
dois patinhos na lagoa
serena do meu sangue

BINGO!

quarta-feira, agosto 20, 2008

MADRIGAL GENÉRICO

MADRIGAL GENÉRICO


Não é que eu queira
discutir Nietzsche,
analisar
Marília Pêra
ou Afrodite.
Sei que desbanca
minha retórica
ao declamar
Florbela Espanca
no edredom
ou ao citar
Carlos Drummond
em devaneios.
Mas, ouça bem:
não me interessam
os seus enleios,
se você lê
o que não leio,
se você sabe
os descaminhos.

Pois você veio
de mansinho
descortinando
os próprios olhos
e agora eu —
fútil ­e burro —
sei que já ando
vazio, rindo
dentro do breu,
donde sussurro:
“Lindo... és lindo...
e serás meu”.

segunda-feira, agosto 18, 2008

Haicai III

Diagnosticado:
o dia agora
em nós foi esticado.

sexta-feira, agosto 15, 2008

ENGANA-SE

ENGANA-SE



não pense não
que sou dengoso
não pise não
que sou lodoso
fique de fora
sou infernal
meu coro cora
meu toque é mau
meu sonho são
meu tempo não
não peça não
consolação
não force não
que estou lacrado
não chore não
que sou safado
e me aproveito
e desacato
e rarefeito
mesmo mato
não tente não
que todos sabem
que dou a mão
de sacanagem
não queira não
que sou famoso
pra solidão
sou talentoso

quarta-feira, agosto 13, 2008

OS TERÇOS FATÍDICOS DE BAUCI

OS TERÇOS FATÍDICOS DE BAUCI



I.
Ela despreza o chão.
Odeia sentir-se presa a qualquer coisa.
Quer ser como um pássaro
a enganar a gravidade.
Mas ela não tem asas.

Não quer prender-se a nada.
Ela está presa à solidão.


II.
Ela respeita o que não é
e teme o poder de seu próprio toque.
Admira a evolução natural das coisas.

Celebra atentamente as modificações do mundo
e não se dá conta do que nela muda.


III.
Ela idolatra tudo em que não está contida.
Ama sua ausência,
sua não-interferência.
Ela não se ama.

Tudo o que não faz parte de si, ela quer.
Ela não quer nada.