Mim é uma rata incompreendida. A paixão é coisa burra, repete Mim para Si, mas como não amar um gato assim gentil e de pêlos flutuantes? A paixão é coisa burra, disse um dia Si a Mim. Eu sou burra, eu sou burra, burra! Mim matutava e perambulava distraída. Então, craque!, foi capturada pela ratoeira e sequer comera o queijo. Burra, burra, burra! E a única preocupação da pequena rata em tão crítico momento era que a visse o gato estúpido, já que decerto tentaria salvá-la, e a paixão é coisa burra, muito burra, para Mim.
segunda-feira, novembro 10, 2008
CORROSIVO
Mim é uma rata incompreendida. A paixão é coisa burra, repete Mim para Si, mas como não amar um gato assim gentil e de pêlos flutuantes? A paixão é coisa burra, disse um dia Si a Mim. Eu sou burra, eu sou burra, burra! Mim matutava e perambulava distraída. Então, craque!, foi capturada pela ratoeira e sequer comera o queijo. Burra, burra, burra! E a única preocupação da pequena rata em tão crítico momento era que a visse o gato estúpido, já que decerto tentaria salvá-la, e a paixão é coisa burra, muito burra, para Mim.
CLOÉ E OS ENCONTROS
Cloé,
mulher de várias faces,
circula sem destino,
mas objetivada.
Aprendeu com as esquinas
um truque fabuloso:
de um olhar para outro,
a cidade, em burburinho,
embebeda-se em orgias
e orgasmos controlados
pelos raios invisíveis
dos desejos da
mulher.
Cloé,
mulher de várias faces,
saiu ilesa de guerras milenares
e arrebatamentos sem igual.
Agora, trabalha nas ruas
por felicidades mudas.
segunda-feira, novembro 03, 2008
quinta-feira, setembro 11, 2008
quinta-feira, setembro 04, 2008
ANIVERSAR
vinte e dois
dois dois
vinte e dois
os anos lançam pedras
na vidraça das minhas perspectivas
quatro de setembro
de dois mil e oito
vinte e dói
a dor de sempre
não tenho mais a idade dos autores jovens
em sua primeira publicação
tampouco a dos experientes
não serei aclamado em minha estréia
visto que estou aqui
um salto após o que quero
e nu
sobre o palco iluminado do teatro vazio
não tenho a vivência dos adultos
já não me cabe a euforia dos adolescentes
estou como ninguém além de mim
estou no mesmo lugar
em que estive ontem
estou no mesmo corpo
em que estive ontem
estou no mesmo hoje
em que estive ontem
o ano é outro
mas o tempo é o mesmo
e a idade é um selo que o homem encarnou
vinte e dois
dois patinhos na lagoa
serena do meu sangue
BINGO!
quarta-feira, agosto 20, 2008
MADRIGAL GENÉRICO
Não é que eu queira
discutir Nietzsche,
analisar
Marília Pêra
ou Afrodite.
Sei que desbanca
minha retórica
ao declamar
Florbela Espanca
no edredom
ou ao citar
Carlos Drummond
em devaneios.
Mas, ouça bem:
não me interessam
os seus enleios,
se você lê
o que não leio,
se você sabe
os descaminhos.
Pois você veio
de mansinho
descortinando
os próprios olhos
e agora eu —
fútil e burro —
sei que já ando
vazio, rindo
dentro do breu,
donde sussurro:
“Lindo... és lindo...
e serás meu”.
segunda-feira, agosto 18, 2008
sexta-feira, agosto 15, 2008
ENGANA-SE
não pense não
que sou dengoso
não pise não
que sou lodoso
fique de fora
sou infernal
meu coro cora
meu toque é mau
meu sonho são
meu tempo não
não peça não
consolação
não force não
que estou lacrado
não chore não
que sou safado
e me aproveito
e desacato
e rarefeito
mesmo mato
não tente não
que todos sabem
que dou a mão
de sacanagem
não queira não
que sou famoso
pra solidão
sou talentoso
quarta-feira, agosto 13, 2008
OS TERÇOS FATÍDICOS DE BAUCI
I.
Ela despreza o chão.
Odeia sentir-se presa a qualquer coisa.
Quer ser como um pássaro
a enganar a gravidade.
Mas ela não tem asas.
Não quer prender-se a nada.
Ela está presa à solidão.
II.
Ela respeita o que não é
e teme o poder de seu próprio toque.
Admira a evolução natural das coisas.
Celebra atentamente as modificações do mundo
e não se dá conta do que nela muda.
III.
Ela idolatra tudo em que não está contida.
Ama sua ausência,
sua não-interferência.
Ela não se ama.
Tudo o que não faz parte de si, ela quer.
Ela não quer nada.
quarta-feira, agosto 06, 2008
UMOLHAR
sou um beberrão
quando você ressaca
num sopro qualquer
e a terra embriaga-se
às gotas divinas
de um mar mulher
tu és a água na lua
que evapora e brota eterna
e sempre que flutuas nua
o mar recolhe-se entrepernas
segunda-feira, agosto 04, 2008
segunda-feira, julho 28, 2008
POLEMINHA SALGAZ
tô tão
______ solzinho
tu tão
______ plutão
que brinco pondo
éles
____ onde
__________ eles
_______________ não
quinta-feira, julho 24, 2008
ELEGIA PRÉTUMA
eu vou morrer
e ficará como rastro meu
muito do que digo efêmero
os poemas, se ainda os lerem
serão resquícios de uma pouca alma
meu fragilíssimo lirismo
desmanchar-se-á com o passar dos anos
sob minha ausência tenaz
as recordações serão agruras de se esquecer
na ausência alheia
que tão cedo há de emparelhar-se à minha
o meu corpo eterno será sêmem
e o mundo se encarregará da minha imortalidade
porém o que desta consciência única carrego
de poderoso e autoconsciente
morrerá comigo
minhas palavras gravadas em papel
hão de esmaecer
minhas canções gravadas no ar
hão de se perder no espaço e degradar
meus amores hão de rir-se
como de uma piada sem graça
da qual se ri apenas pela estranheza
minhas paixões serão confundidas com mentiras
até se tornarem
eu vou morrer
e, enfim, nada do que sou restará
pois nada do que sou
do que realmente soul
assim inquebrantável e infinitamente presente
os sentidos absorverão
tem mais valor em mim o que omito
segunda-feira, julho 21, 2008
AS DEPENDÊNCIAS DE MAURÍLIA
Há duas Maurílias:
uma diante dos olhos
e outra frente às lembranças
A Maurília de hoje
maliciosa e sorridente
consome o espírito do homem frágil
numa saudade teimosa da Maurília de outrora
provinciana e pudica
O cheiro de terra molhada
da Maurília memorável
é relembrado, desejado e cultuado
no barro nojento
da Maurília moderna
A Maurília do passado contudo
ao ser presente
era como a Maurília do presente então futuro:
dispensável e vazia de emoções
A maravilha da Maurília antiga
deve-se pois à tristeza da nova Maurília
que traz aos olhos do homem frágil
lágrimas de penar e gratidão
ao desprezível ódio que agora toma o lugar
do amor de plásticos sonhos passados
quinta-feira, julho 17, 2008
MEP II
II
Davi dependurou amanhã
todo na árvore do vô
Davi cuspiu a tarde
na cabeça da tia Fátima
e apanhou a noite
numa bacia de água roxa