sou um beberrão
quando você ressaca
num sopro qualquer
e a terra embriaga-se
às gotas divinas
de um mar mulher
tu és a água na lua
que evapora e brota eterna
e sempre que flutuas nua
o mar recolhe-se entrepernas
tô tão
______ solzinho
tu tão
______ plutão
que brinco pondo
éles
____ onde
__________ eles
_______________ não
eu vou morrer
e ficará como rastro meu
muito do que digo efêmero
os poemas, se ainda os lerem
serão resquícios de uma pouca alma
meu fragilíssimo lirismo
desmanchar-se-á com o passar dos anos
sob minha ausência tenaz
as recordações serão agruras de se esquecer
na ausência alheia
que tão cedo há de emparelhar-se à minha
o meu corpo eterno será sêmem
e o mundo se encarregará da minha imortalidade
porém o que desta consciência única carrego
de poderoso e autoconsciente
morrerá comigo
minhas palavras gravadas em papel
hão de esmaecer
minhas canções gravadas no ar
hão de se perder no espaço e degradar
meus amores hão de rir-se
como de uma piada sem graça
da qual se ri apenas pela estranheza
minhas paixões serão confundidas com mentiras
até se tornarem
eu vou morrer
e, enfim, nada do que sou restará
pois nada do que sou
do que realmente soul
assim inquebrantável e infinitamente presente
os sentidos absorverão
tem mais valor em mim o que omito
Há duas Maurílias:
uma diante dos olhos
e outra frente às lembranças
A Maurília de hoje
maliciosa e sorridente
consome o espírito do homem frágil
numa saudade teimosa da Maurília de outrora
provinciana e pudica
O cheiro de terra molhada
da Maurília memorável
é relembrado, desejado e cultuado
no barro nojento
da Maurília moderna
A Maurília do passado contudo
ao ser presente
era como a Maurília do presente então futuro:
dispensável e vazia de emoções
A maravilha da Maurília antiga
deve-se pois à tristeza da nova Maurília
que traz aos olhos do homem frágil
lágrimas de penar e gratidão
ao desprezível ódio que agora toma o lugar
do amor de plásticos sonhos passados
II
Davi dependurou amanhã
todo na árvore do vô
Davi cuspiu a tarde
na cabeça da tia Fátima
e apanhou a noite
numa bacia de água roxa
I
mamãe me gritou no portão Sai
daí que quase que só tem escuro
pisei no pé do escuro e corri
o mais rápido que pude
desde aquela todas as noites
ele sussurra uma vingança
embaixo da minha cama