segunda-feira, novembro 20, 2006

FESTIM FOOD

FESTIM FOOD


dois pães espremidos
deitados na chapa
fritando os miolos
dois pães espremidos
espremendo espremendo

e eu que tanto esperei
um amor assim farto
melecando o canto da boca
sem guardanapo
quase morro de fome
devorado no prato

pão-dormido pão-duro
feito sangue que talha
espremido espremendo
a mostarda
mas não falha

sexta-feira, novembro 17, 2006

SÍNDROME DO ESTOU COMO

SÍNDROME DO ESTOU COMO


O poeta estancado:
____— Há dias que
____não escrevo nada,
____nada sinto.
____Estou como
____uma versão piorada
____de mim outro,
____minto:
____estou como
____se nunca houvesse encontrado
____o mim outro
____que, frente ao espelho,
____finto.

quarta-feira, novembro 15, 2006

FRENTE E VERSOS



Escrito em frente e versos vai meu novo endereço virtual, um blog compartilhado, onde eu e Isabella Brito levaremos, para os que se arriscarem a ler, textos que são frente e verso de uma mesma idéia. Virem nossas páginas, rabisquem nos cantos, grifem as frases atraentes, cortem as de gosto duvidoso, sintam-se a vontade para abrir e fechar nosso livro quando bem entenderem. E não esqueçam de ler frente e versos. Basta clicar aqui e conferir!




DAS INTENÇÕES


— Por que o poema atravessou a rua?
— Porque o sinal fechou.
— Não.
— Para chegar do outro lado?
— Não.
— Porque... porque... porque ele teve vontade!
— Não.
— Ah, desisto. Não sei. Por quê?
— Ele não atravessou a rua!
— Mas isso não faz sentido.
— Dããã! É um poema!

terça-feira, novembro 14, 2006

ARTE E VIDA LANTERNINHA

A VIDA IMITA A ARTE RECRIA A VIDA


Então,
vida:
projeção
na pele.
Película
trash:
brecha no roteiro;
trilha brega;
atuações banais;
ausência de efeitos
visuais;
direção falha.
Porém, encanta
pela
bela
fotografia
em
preto e branco.

segunda-feira, novembro 13, 2006

OUTRAS ÁGUAS

OUTRAS ÁGUAS
Para Remo Saraiva


no rio que Remo
percorre
meu corpo saraivado
de belo
morre




Um dia encontrei um poeta no meio de uma pilha de roupas sujas. Eu lavei, espremi, estendi à lua, limpei bem até poder contemplá-lo sem o cheiro de tudo o que havia entulhado junto dele. Um poeta magnífico, cuja carcaça reluzia indiferente e quase despretensiosa. Acabei viciado. Aconselho que também tomem suas doses diárias: >> encontre seu título << .
Este é Remo Saraiva. Ou qualquer outro nome, basta encontrar seu título (que título César Comenta daria para ele?).

sábado, novembro 11, 2006

RALAVANAVA

RALAVANAVA


— Mãe, mãe, mãe, aprendi uma palavra nova!
— Ah, é?! E qual foi?
— Ralavanava.
— Como?
— RALAVANAVA!
— Hum... e o que isso significa?
— Significa que eu não sei pensar.
— Não diga uma coisa dessas, meu filho! Você é uma criança tão esperta!
— Não, mãe. Eu sou poeta.
— Valei-me, meu São Judas Tadeu!

sexta-feira, novembro 10, 2006

SOBERBA

SOBERBA


tire suas mãos
geladas suadas trêmulas
de tudo o que me pertence:

afaste suas mãos
de si
e venha bater palmas
em mim

... os sete poemas capitais

quinta-feira, novembro 09, 2006

AVAREZA

AVAREZA


eu quero
seu olho sua boca sua mão seu balanço seu dedão do pé
eu quero
seu relógio seu cabelo sua roupa seu espaço seus pêlos de pé
eu quero
sua voz seu canudo seu cheiro seu braço sua coxa seu umbigo seu
reflexo cadarço seu beijo de veludo seu sorriso mudo até seu chulé

eu quero quase tudo
só não quero a cicatriz
embaixo do seu queixo
um corte feio e cego
desleixo do meu ego
que me faz lembrar de mim



... os sete poemas capitais

quarta-feira, novembro 08, 2006

IRA

IRA


vem assim me esmagando
faz o sol, noite adentro,
ser de mim o que não sou

vem gritando que me odeia
faz pegadas no meu pódio
para nunca mais me pôr
...
mas pra que tanto eclipse
se já sabes que o ódio
é uma forma de amor?



... os sete poemas capitais

terça-feira, novembro 07, 2006

LUXÚRIA

LUXÚRIA


uma palavra crua logo
após uma noite de amor selvagem
vale mais do que mil diálogos
vale mais do que mil imagens



... os sete poemas capitais

segunda-feira, novembro 06, 2006

PREGUIÇA

PREGUIÇA


vamos fazer um negócio:
esquecerei o amor
e viveremos do ócio



... os sete poemas capitais

domingo, novembro 05, 2006

INVEJA

INVEJA


oh, minha amada
pudera eu amá-la
o amor que tu me amas
quem dera, amada!
mas amo esse amor triste
que quase não existe
oh, minha amada
te amo como a mim
um amor mesquinho assim
pouquinho, quase nada



... os sete poemas capitais

sábado, novembro 04, 2006

GULA

GULA


de tanto que me anula
a sua presença
é minha gula



...os sete poemas capitais

quinta-feira, novembro 02, 2006

DO DESTINO

DO DESTINO


tenho sérios problemas
com os desígnios da vida

fui designado a ser sombra
do sol que me projeta
fui projetado pra ser meta
e acabei saindo poeta

RALOUIM

RALOUIM


— Ralouim.
— Ré-lou-íem!
— Relouim?
— Quase. Ré-lou-í-em. Mas vocês aqui podem chamar de Dia das Bruxas que dá no mesmo.
— Sei. E lá vocês falam como? Diei dés briuxeis?
— Não. Lá é Rélouiem mesmo, que se escreve agá, á, éle, éle, são dois éles, ó, dábiliu, dois és e um êne no final, diferente da sua língua, que tem mania de acabar palavras com ême. Halloween.
— Ah, entendi!
— Então, já posso comer seu cérebro?
— Não, espera. Tenho outra pergunta.
— Hum?
— Ralouim, em português, quer dizer Dia das Bruxas?
— Não, não há relação. É apenas uma forma de adaptar a data à sua cultura, assim como o Dia do Saci, que, desde o ano passado, passou a também ser comemorado neste dia, para valorizar seu folclore.
— Ah! Então o senhor é um Saci!
— NÃO! Eu sou o cadáver de um bruxo morto na época da...
— Mas o senhor acabou de dizer que hoje é Dia do Saci!
O morto engoliu o menino.
— Odeio quando dá interferência na linha espiritual e acabo encarnando nesses países latino-americanos!